Desembucha.com ― Um “WordPress” brasileiro relâmpago?

Num bate-papo sobre os primórdios da blogosfera brasileira surgiu a lembrança um serviço de blogs totalmente brasileiro que apareceu e se alastrou como rastro de pólvora, mas que, se apagou na mesma velocidade, por falta de recursos ― o Desembucha.com.

Quem já era blogueiro nos [nem tão] velhos tempos de 2001, provavelmente já ouviu falar do Desembucha, que “viveu” entre maio e setembro deste ano e chegou a ter 4.000 blogs, 9.000 usuários e cerca de 10.000 acessos por dia.

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Logo Desembucha.com

A forma como o Desembucha se alastrou entre os internautas brasileiros é impressionante e já mostra o poder viral do “boca-a-boca” deste meio, mesmo numa época em que banda larga em casa era artigo de luxo.

No serviço, foram hospedados blogs de grande expressividade, hits no momento, como Xoxota Crew, com temática sexual, o Loser, do Pedro Ivo, um dos blogs de maior sucesso da época, que contava histórias engraçadas do cotidiano de um “perdedor”, no melhor estilo humor-geek… Os blogs faziam tanto sucesso, que, assim como o próprio Desembucha, iam parar em sites já bem conhecidos como o Delícias Cremosas, que foi assunto no Cocadaboa.com.

Mas, afinal, por que falar disso?

Os motivos são vários… Como costuma dizer o Carlos Nepomuceno , “pra conhecer o presente, precisamos estudar o passado.” Isso ajuda também a evitar alguns micos, como o atual “Delicias Cremosas”, um inocente blog de culinária, que é impossível ler sem pensar no temático picante do original – e, claro, achar muita graça.

Revelar como em pouco tempo e descompromissadamente, um único cara de vinte e poucos anos, desenvolveu uma plataforma simples, fácil de usar, com templates customizáveis e melhor que as grandes estrangeiras à disposição. Essa é uma história que vale a pena contar. E era melhor porque era de graça, em português, limpa e sem banners. Isso tem relação direta com saber que aqui no Brasil tem muita gente boa desenvolvendo coisas inovadoras, tendo boas idéias. Com um layout simples, clean, quase Google-style, uma logo bacana e uma descrição divertida, ainda incomuns na época em que os GIFs animados e os dégradés gritantes imperavam.

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Home do Desembucha.com

Há oito anos o acesso à internet estava ainda começando a se popularizar, não tinha Twitter e o comunicador da moda era o ICQ. E foi assim, na base do amigo que fala pro amigo que fala pro amigo, que o Desembucha foi parar no Globo, Jornal do BrasilVejaInfo Exame e se tornou um verdadeiro “estouro”. Irônicamente (e infelizmente) este foi o princípio do fim:

“O consumo de recursos do site ficou então muito grande, em parte pelo processamento das páginas, já que usávamos uma linguagem interpretada, e em parte pelo consumo de banda. Assim, fomos “convidados” a assinar um plano de hospedagem em um servidor dedicado. Como sustentávamos o site com recursos próprios, tivemos que tirá-lo do ar, já que esses planos de hospedagem em servidores dedicados estavam muito além do que podíamos arcar.”, diz Gustavo Coelho, criador do serviço em seu atual blog, o Casal Geek, hosteado pelo Blogspot.

A propaganda, invasiva e indesejada já era muito incômoda sem relevância. Os blogueiros procuravam interfaces sem os banners irritantes e que davam uma aparência muito amadora aos sites em que se esmeraram para colocar seus pensamentos sobre seus assuntos preferidos, ou seja, um conteúdo totalmente pessoal sendo toscamente invadido por uma empresa sem ser convidada.

E a necessidade de se comunicar, de expressar-se para o mundo, de ter voz, que já era bastante latente e os blogs ajudavam a libertar, o Desembucha deu tom de grito, em português, na linguagem do povão. Como dizia a descrição do Princesa Primavera Cabo Frio 2001: “Vc está num blog dedicado a todas as garotas que nunca entenderam a linguagem HTML, por isso não tinham como expressar suas idéias, falar mal de caras sacanas, e mostrar o melhor da música… o rock’n roll !”.

O Desembucha, além de possibilitar que qualquer pessoa se expressasse para quem quisesse ler, também permitia que blogueiros afins se encontrassem, trocassem idéias e até mesmo (por que não?) se criticassem.

“Achei o Desembucha através de outro blog (não me lembro qual). Naquela época não tínhamos tantas escolhas. Ainda não havia muitos recursos e as plataformas eram muito básicas. Sendo assim, o Desembucha era equivalente em recursos ao Blogger, por exemplo. Mas o que o fazia especial era o sentimento de comunidade que existia por lá. Havia um ranking com os mais acessados, funcionalidades de comunidade. Muitos blogueiros acabaram se conhecendo pessoalmente. Era quase uma confraria mesmo. E isso fazia a diferença. Ele foi um serviço pioneiro. E soube trabalhar bem a questão da comunidade entre blogueiros. Era diferente de um sistema onde cada um escreve o seu blog sem se comunicar. É a diferença entre trabalhar em um espaço aberto em contraponto a um ambiente de trabalho dividido em baias. O Desembucha conseguiu se transformar de fato em uma grande comunidade, ao invés de uma simples ferramenta.” – diz Pedro Ivo, autor do Loser.

E se no Desembucha havia “blogs para tudo quanto é gosto, sexo, religião e sabor de sorvete”, não é de se admirar que o mais acessado fosse o da Igreja Universal, onde este público achava um lugar livre para se expressarem e se conectarem.

Mas, uma coisa é certa: ainda melhor do que ver tudo o que já foi dito sobre o Desembucha, é ver o criador falando da criatura. Por isso, não deixe de ler, a seguir, uma entrevista fresquinha e atualíssima com Gustavo Coelho, o grande criador!

Simone Chiesse – De onde surgiu a idéia do Desembucha? Por que você decidiu criá-lo?

Gustavo Coelho – O Desembucha.com surgiu em maio de 2001. A idéia surgiu após conhecer o antigo blog do Bernardo Carvalho. O RTFM foi o primeiro blog com o qual tive contato, e o formato me agradou tanto, que resolvi criar um. Entretanto, a idéia de hospedar meu blog no Blogger não me agradava muito por causa da exibição de banners imposta pelo Blogspot. Como eu já mantinha um site de busca com um colega, resolvi aproveitar a infraestrutura da qual dispunha para criar um sistema que me permitisse ter um blog livre de propagandas indesejadas.

A idéia original não era criar uma ferramenta para ser usada em âmbito nacional. O Desembucha.com surgiu originalmente como uma ferramenta para ser utilizada apenas por nós, nossos amigos e familiares, mas não limitamos o acesso ao site, com esquema de convites ou coisa parecida. Assim, qualquer um que conhecesse o site, poderia se cadastrar e criar seu blog.

SC – Quais eram os principais “concorrentes” naquela época? Qual era a principal vantagem do Desembucha em relação aos outros?

GC – Quando o Desembucha.com surgiu, acho que havia apenas o Blogger como opção gratuita. Nos momentos finais do site, entretanto, surgiu o Weblogger, que copiou descaradamente nossos templates, chegando inclusive a utilizar nossos thumbnails no site.

Como concorremos mesmo com o Blogger, nossa principal vantagem era a ausência de banners, mas os usuários elogiavam o fato dele ser mais simples de usar e, é claro, ser em português.

SC – O que você acha que fez o Desembucha virar um sucesso tão rápido?

GC – Embora a divulgação “boca-a-boca” tenha sido importante no início, acredito que o boom dos acessos ocorreu quando algumas publicações começaram a falar de blogs, e citaram o Desembucha.com, que na época foram: O Globo, Jornal do Brasil, revistas Veja e Info Exame.

Fora essas matérias, acho que outros dos fatores que contribuíram também para o sucesso do site foram alguns blogs como o Loser, do Pedro Ivo e o Xoxota’s Crew, que atraíam muitos visitantes, que por sua vez acabavam virando usuários do site.

SC – Você fez alguma divulgação do serviço, ainda que pequena, ou foi puramente viral?

GC – Começamos a divulgar o Desembucha.com em outro site que mantínhamos, mas o grosso foi feito “boca-a-boca”. De qualquer forma, o que contribuiu bastante para popularizar o site foram essas matérias n’O Globo, Veja, etc.

SC – Como era o cenário blogueiro em 2001? O que você vê de diferente entre aquela época e hoje em dia em relação à cena blogueira?

GC – Era muito diferente. Para começar, blogs eram vistos como “diários virtuais”. Por isso, empresas e celebridades não usavam a ferramenta como uma forma de estar mais perto do seu público. Além disso, não havia esse profissionalismo com o qual os blogs são tratados atualmente. Era tudo muito amador e o formato atraía apenas aqueles que gostavam mesmo de escrever.

SC – Você mesmo criou os layouts, concebeu a idéia e fez a programação?

GC – Foi. Da idéia inicial à programação, passando pelos layouts, eu fiz tudo. Entretanto, contei com a ajuda do Guilherme Rocha para colocar o projeto no ar, pois ele já era meu parceiro num site de busca que criou, e eu não entendia nada dessa parte de infraestrutura, registro de domínio, etc.

É importante ressaltar que ao ver os layouts daquela época eu acho tudo muito tosco 🙂

SC – Como você compara o Desembucha às atuais tecnologias de blog e CMSs?

GC – É meio complicado fazer essa comparação porque muitas tecnologias atuais não estavam disponíveis na época, e seria como comparar um automóvel a uma carroça. Os dois meios de transporte realizam a mesma tarefa, mas um com mais recursos e conforto (usabilidade) que o outro 🙂

O que eu posso comparar, entretanto, é o fato de que com o Desembucha.com nós implantamos o embrião de uma comunidade, coisa que não havia na época. Qualquer ferramenta desenvolvida atualmente já é pensada como plataforma social, e isto na época não era levado em consideração.

SC – Quando a coisa complicou com a hospedagem, você teve a opção de vender o serviço? Alguma empresa de se interessou pela tecnologia?

GC – Quando tiramos o site do ar, estivemos em contato com um grande portal brasileiro, mas eles acabaram optando pela compra (ou licenciamento, não sei) de um sistema estrangeiro.

SC – No que se refere à facilidade de hospedagem, se fosse hoje, você acha que teria condições de manter o serviço?

GC – Acho que sim, principalmente se levássemos em conta a possibilidade de utilizar o Google AdSense para geração de receita.

SC – E você chegou a pensar algum momento em monetizar? Se sim, como?

GC – Nós tínhamos a filosofia de não exibir banners nos blogs, e esta era praticamente a única forma de monetização na época. Chegamos a pensar em um sistema de assinatura, com recursos avançados para os usuários assinantes, mas desistimos da idéia porque o site já estava nos seus piores dias, e ninguém confiaria num serviço que estava passando por tanta dificuldade.

SC – Como você se compararia ao Matt Mulleng, criador do WordPress?

GC – Pelo que sei, ele criou o WordPress quando decidiram interromper o desenvolvimento do b2. Eu, por outro lado, criei o Desembucha.com para fugir do esquema de banners do Blogger. Acredito que ele seja um apaixonado por desenvolvimento como eu, mas, com certeza, ele teve uma visão mais profissional e empreendedora do que estava fazendo.

SC – Já pensou em recolocar o Desembucha no ar, como serviço?

GC – Já pensei, mas desisti porque já existem muitos serviços semelhantes (e que não pararam no tempo) no ar.

SC – Você lia os blogs do Desembucha? Quais eram os seus preferidos?

GC – Claro. Nós éramos parte da comunidade. Meus prediletos eram o Loser e o Blog de Merda.

SC – Os muitos órfãos do Desembucha já te procuraram (como eu!)?

GC – Alguns. A maioria para pedir que o seu blog antigo seja removido do arquivo 🙂

SC – Você acha que conseguiu formar uma rede, conectar pessoas através do Desembucha? Se acha que conseguiu, quais elementos considera fundamentais para que isso tenha ocorrido?

GC – Acredito que sim. Como disse antes, nós criamos uma espécie de embrião de comunidade. O site possuía algumas ferramentas que estimulavam isso, mas não lembro quais eram 😛

De qualquer forma, acredito que nosso relacionamento mais próximo dos usuários contribuiu também para a criação de uma identidade coletiva.

Para quem se interessar, um pouco mais da história do Desembucha.com pode ser vista nos seguintes posts:

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3 Responses to Desembucha.com ― Um “WordPress” brasileiro relâmpago?

  1. Simone,
    parabéns pela matéria e obrigado pelo prazer em me fazer lembrar dos tempos do Desembucha.com.

    Bacana o Gustavo ter falado na formação de uma rede, em uma “identidade coletiva”. #nepofeelings. Acho que o lance é esse mesmo. Fomentar ideias e suprir latências.

    FC.

  2. […] Desembucha.com ― Um WordPress brasileiro relâmpago? « Radiola Digital radioladigital.wordpress.com/2009/10/30/desembucha_um_wordpress_brasileiro_relampago – view page – cached Num bate-papo sobre os primórdios da blogosfera brasileira surgiu a lembrança um serviço de blogs totalmente brasileiro que apareceu e se alastrou como rastro de pólvora, mas que, se apagou na… (Read more)Num bate-papo sobre os primórdios da blogosfera brasileira surgiu a lembrança um serviço de blogs totalmente brasileiro que apareceu e se alastrou como rastro de pólvora, mas que, se apagou na mesma velocidade, por falta de recursos ― o Desembucha.com. (Read less) — From the page […]

  3. Eric Chiesse disse:

    Aê! Ficou muito boa !! Parabéns !
    Eric.

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