Desembucha.com ― Um “WordPress” brasileiro relâmpago?

outubro 30, 2009

Num bate-papo sobre os primórdios da blogosfera brasileira surgiu a lembrança um serviço de blogs totalmente brasileiro que apareceu e se alastrou como rastro de pólvora, mas que, se apagou na mesma velocidade, por falta de recursos ― o Desembucha.com.

Quem já era blogueiro nos [nem tão] velhos tempos de 2001, provavelmente já ouviu falar do Desembucha, que “viveu” entre maio e setembro deste ano e chegou a ter 4.000 blogs, 9.000 usuários e cerca de 10.000 acessos por dia.

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Logo Desembucha.com

A forma como o Desembucha se alastrou entre os internautas brasileiros é impressionante e já mostra o poder viral do “boca-a-boca” deste meio, mesmo numa época em que banda larga em casa era artigo de luxo.

No serviço, foram hospedados blogs de grande expressividade, hits no momento, como Xoxota Crew, com temática sexual, o Loser, do Pedro Ivo, um dos blogs de maior sucesso da época, que contava histórias engraçadas do cotidiano de um “perdedor”, no melhor estilo humor-geek… Os blogs faziam tanto sucesso, que, assim como o próprio Desembucha, iam parar em sites já bem conhecidos como o Delícias Cremosas, que foi assunto no Cocadaboa.com.

Mas, afinal, por que falar disso?

Os motivos são vários… Como costuma dizer o Carlos Nepomuceno , “pra conhecer o presente, precisamos estudar o passado.” Isso ajuda também a evitar alguns micos, como o atual “Delicias Cremosas”, um inocente blog de culinária, que é impossível ler sem pensar no temático picante do original – e, claro, achar muita graça.

Revelar como em pouco tempo e descompromissadamente, um único cara de vinte e poucos anos, desenvolveu uma plataforma simples, fácil de usar, com templates customizáveis e melhor que as grandes estrangeiras à disposição. Essa é uma história que vale a pena contar. E era melhor porque era de graça, em português, limpa e sem banners. Isso tem relação direta com saber que aqui no Brasil tem muita gente boa desenvolvendo coisas inovadoras, tendo boas idéias. Com um layout simples, clean, quase Google-style, uma logo bacana e uma descrição divertida, ainda incomuns na época em que os GIFs animados e os dégradés gritantes imperavam.

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Home do Desembucha.com

Há oito anos o acesso à internet estava ainda começando a se popularizar, não tinha Twitter e o comunicador da moda era o ICQ. E foi assim, na base do amigo que fala pro amigo que fala pro amigo, que o Desembucha foi parar no Globo, Jornal do BrasilVejaInfo Exame e se tornou um verdadeiro “estouro”. Irônicamente (e infelizmente) este foi o princípio do fim:

“O consumo de recursos do site ficou então muito grande, em parte pelo processamento das páginas, já que usávamos uma linguagem interpretada, e em parte pelo consumo de banda. Assim, fomos “convidados” a assinar um plano de hospedagem em um servidor dedicado. Como sustentávamos o site com recursos próprios, tivemos que tirá-lo do ar, já que esses planos de hospedagem em servidores dedicados estavam muito além do que podíamos arcar.”, diz Gustavo Coelho, criador do serviço em seu atual blog, o Casal Geek, hosteado pelo Blogspot.

A propaganda, invasiva e indesejada já era muito incômoda sem relevância. Os blogueiros procuravam interfaces sem os banners irritantes e que davam uma aparência muito amadora aos sites em que se esmeraram para colocar seus pensamentos sobre seus assuntos preferidos, ou seja, um conteúdo totalmente pessoal sendo toscamente invadido por uma empresa sem ser convidada.

E a necessidade de se comunicar, de expressar-se para o mundo, de ter voz, que já era bastante latente e os blogs ajudavam a libertar, o Desembucha deu tom de grito, em português, na linguagem do povão. Como dizia a descrição do Princesa Primavera Cabo Frio 2001: “Vc está num blog dedicado a todas as garotas que nunca entenderam a linguagem HTML, por isso não tinham como expressar suas idéias, falar mal de caras sacanas, e mostrar o melhor da música… o rock’n roll !”.

O Desembucha, além de possibilitar que qualquer pessoa se expressasse para quem quisesse ler, também permitia que blogueiros afins se encontrassem, trocassem idéias e até mesmo (por que não?) se criticassem.

“Achei o Desembucha através de outro blog (não me lembro qual). Naquela época não tínhamos tantas escolhas. Ainda não havia muitos recursos e as plataformas eram muito básicas. Sendo assim, o Desembucha era equivalente em recursos ao Blogger, por exemplo. Mas o que o fazia especial era o sentimento de comunidade que existia por lá. Havia um ranking com os mais acessados, funcionalidades de comunidade. Muitos blogueiros acabaram se conhecendo pessoalmente. Era quase uma confraria mesmo. E isso fazia a diferença. Ele foi um serviço pioneiro. E soube trabalhar bem a questão da comunidade entre blogueiros. Era diferente de um sistema onde cada um escreve o seu blog sem se comunicar. É a diferença entre trabalhar em um espaço aberto em contraponto a um ambiente de trabalho dividido em baias. O Desembucha conseguiu se transformar de fato em uma grande comunidade, ao invés de uma simples ferramenta.” – diz Pedro Ivo, autor do Loser.

E se no Desembucha havia “blogs para tudo quanto é gosto, sexo, religião e sabor de sorvete”, não é de se admirar que o mais acessado fosse o da Igreja Universal, onde este público achava um lugar livre para se expressarem e se conectarem.

Mas, uma coisa é certa: ainda melhor do que ver tudo o que já foi dito sobre o Desembucha, é ver o criador falando da criatura. Por isso, não deixe de ler, a seguir, uma entrevista fresquinha e atualíssima com Gustavo Coelho, o grande criador!

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